Diversidade: como está a inclusão das pessoas com deficiência?


03/12/2017
Por Grupo Cia de Talentos

Hoje, dia 03/12, é celebrado o dia internacional da pessoa com deficiência. A data é celebrada desde 1998 e tem como objetivo a ampliação dos direitos e inclusão da pessoa com deficiência na sociedade.

Para entender um pouco mais sobre a temática e situação da pessoa com deficiência no Brasil, entrevistamos o especialista Djalma Scartezini. Psicólogo de formação, tem como missão pessoal colaborar para que a sociedade seja cada vez mais inclusiva e livre de preconceitos. Hoje ele está a frente da Gerência de Inclusão na Telefônica Brasil. Atuou na mesma área na Sodexo On-Site e Walmart e fundou em 2011 a Respeito Potencial Humano, uma empresa focada na inclusão de pessoas com deficiência. Foi uma troca muito rica e com muitos aprendizados.

Djalma, na sua opinião, quais são os principais avanços que o Brasil tem visto no que diz respeito à inclusão de pessoas com deficiência?
Evoluímos muito, desde a criação da Lei de Cotas em 1991, mas ainda há muito que ser feito. 26 anos depois, temos de acordo com a RAIS 2015, 403 mil pessoas com deficiência contratadas, um número ainda tímido frente aos 9,7 milhões aptos a trabalhar de acordo com o TEM (Ministério do Trabalho e Emprego).  A implementação da Lei de Cotas impulsionou a nossa sociedade a sair de uma fase de segregação e começar a trilhar o caminho para uma fase de integração e inclusão.
Outra conquista importante foi a Lei Brasileira de Inclusão (LBI), que entrou em vigor em janeiro de 2016, trazendo novas perspectivas para além do mundo do trabalho. Conhecida também como Estatuto da Pessoa com Deficiência, a nova lei abrange áreas como saúde, educação, assistência social, esporte, previdência e transporte. Além disso, a LBI amplia a punição para quem desrespeita os direitos das pessoas com deficiência.
 
E mesmo com estes avanços, sabemos que ainda falta muito para criar um país genuinamente inclusivo. O que precisamos fazer mais e melhor quando pensamos na inclusão da pessoa com deficiência?
Entendo que evoluímos pouco quando olhamos sob a perspectiva de urbanismo e planejamento do mobiliário urbano. Sair a pé nos grandes centros comerciais como Berrini e Paulista na cidade de São Paulo ainda é encontrar uma calçada desigual, cheia de perigos e um prato cheio para um acidente de trabalho e afastamento na hora do almoço. Se encontramos estes locais assim, imagina no restante do País.
No meu entendimento, acredito que a inclusão de fato acontece quando as pessoas estão em relação. Isto é, estão com seu direito de ir e vir (garantidos pelo Art 5º de nossa Constituição) plenamente assegurados e, por consequência com acesso ao mercado de trabalho. O resultado disso, é que a pessoa passa a ter sua renda, contribuir com o desenvolvimento econômico do País e, é visto como cidadão por cumprir seus deveres e exercer seus direitos. O Governo tem a obrigação de garantir os direitos das pessoas com deficiência e a sociedade civil de fiscalizar e lutar por estes direitos. Mas, na prática, hoje é a iniciativa privada que paga a conta e faz ações que garantam o acesso e muitas vezes até a formação deste público.
 
 
E qual é o papel que as empresas tem no processo de inclusão e quais são os principais desafios para atingir as cotas de PCDs?
As empresas tem o desafio de cumprir a lei de cotas (a partir de 100 funcionários) e acabam por herdar uma problema sócio-cultural histórico de exclusão. Entendo que o principal desafio hoje não é mais ter pessoas com deficiência capacitadas para o mundo do trabalho, mas sim, as barreiras culturais e atitudinais que dificultam o respeito e a permanência das pessoas com deficiência nas empresas. Somos sim, um país com muitos preconceitos que ainda tem dificuldades de quebrar paradigmas e rever seus conceitos sobre PCD’s, Mulheres, LGBT, Refugiados ou mesmo idosos. O principal desafio por tanto, é cultural. Devemos deixar de atuar nossos vieses inconscientes: “Ah, ele não vai conseguir... Ela é diferente.... Mas ela é mãe... e vários outros.”
 
Pelo visto há muito trabalho a ser feito não só dentro das empresas, mas também por parte do governo e sociedade civil. Qual é a sua visão de futuro, seu sonho?
Meu sonho, é um País mais justo, mais inclusivo e que não olhe para as diferenças como algo a ser repelido ou frágil, mas sim como nossa força. O Brasil é um País Diverso e, mora na Diversidade o futuro do país e das organizações. Quanto maior a diversidade, maior a inovação, a criatividade e as soluções que podemos oferecer. Além disso, busco construir um País com mais consciência que precise de menos leis para que lhe digam o que é certo ou errado a se fazer. A medida que isso se torne cultura, não precisaremos de uma lei contra discriminação, por exemplo.